Eu ainda era jovem, completamente mais novo e faltavam alguns anos para adentrar na minha pré-adolescência e, no entanto lá estava eu, inicialmente nas madrugadas de todas as sextas-feiras e mais tarde nas de sábado, garantindo seu ibope, sempre no mesmo Bat-Canal. Não era simplesmente um hábito, eu entendia o que fazia como uma religião rigidamente controladora, fazendo com que me comportasse estarrecido diante daquelas cores, que certamente não passavam de uma ilusão de óptica oriundas da refração da luz, das imagens, cenas, sons, palavras, ações e das histórias que são construídas em prol de uma única meta, do objetivo-mor e supremo que se pode esperar de uma trama que envolve toda a avassaladora natureza dos homens.
Perdido no meio de tantos desejos, investidas e troca de olhares eu tomava o que observava como uma experiência não vivida, norteando minha singela vida para uma abordagem quase que hedonista. Ela que tinha seu nome na maioria títulos e/ou temas envolvendo os seus “Tesouros”, “segredos”, “as freiras”, sua versão “negra” e até mesmo “perdida no espaço.” E o fato de inúmeras vezes, demasiadamente, ter presenciado as suas aventuras reprisadas naquela caixa alienadora do saber e do viver, não eram suficientes para me afastar dela e sim o oposto, pois cada vez mais em que eu apreciava tal espetáculo, era com mais veemência as minhas críticas que sempre tendiam para o esplêndido e sem dúvidas despertava e ainda desperta e não somente em mim, uma infindável sensação de bem-estar e fúria intempestiva no meu âmago, assim como no de algumas fêmeas.
Entre um intervalo e outro eu era impulsionado a sentar no majestoso trono mágico ou no meu leito do sono não eterno, para contemplar de maneira corpórea o que aquelas incalculáveis sugestões retratadas em uma imagética simbólica de um abstrato condicionado ao meu inerente universo paralelo, liderados pelo inconsciente e subconsciente, em algo prático, num pecado digno de bulas papais, de desperdício da vida, da semente fora da terra, do sêmen, da masturbação. Mais do que um virtuoso e invólucro corpo humano, mais que a simples sorte do destino de tê-la interposto no meu caminho e de outros, ela certamente foi eleita como a musa mais graciosa, carismática e almejada de uma geração, de toda a complexa confraria masculina de inescrupulosos sentimentos platônicos.
Emanuelle, este era seu nome, sua glória e seu triunfo. Ela está para nós varões como os sagrados livros de romance pornô “chanchada” JÚLIA, SABRINA, BIANCA, JÉSSICA entre outros estão para as solteironas de plantão ou mulheres mal amadas; típicas senhoritas e senhoras habitantes de vilarejos provincianos de hábitos únicos que entendem a conduta da vida alheia como errônea e imoral, causando-lhes espanto, autorizando-as a tratar tais ações por um prisma psico-social de auxílio comportamental.
Porém, quem não se lembra dos famosos dizeres destes livretos tão infames propagadores de volúpia pecaminosa da luxúria, que tem nos rostos cansados e indiferentes das mulheres ardidos, a sua morada. Relatos do tipo: “(...) ao tocar um dos seus seios, ele percebeu que ela não usava sutiã e aprofundou ainda mais o beijo (...) uma das mãos másculas a segurava pela nuca e ela começou a se entregar, incapaz de conter as sensações de prazer que o beijo lhe causava (...) estava mergulhando em um mundo de paixões intensas onde só estivera uma vez (...) Não tirou as Sandálias dela, pois era inacreditavelmente erótico usar sandálias de salto alto com tiras amarradas enquanto os dedos dele traçavam círculos em suas ancas, esfregando a concavidade detrás dos joelhos, acariciando suas coxas, as mãos abarcando delicadamente o bumbum redondo para depois deslizar na curva da cintura e então se espalhar pelo ventre, indo e voltando naquela área sensível abaixo dos quadris.”
Queria viver o suficiente para ver a História consagrar minha deusa, absolutamente maior que uma pop-star, ser convocada a fazer parte do panteon das mulheres inestimáveis deste mundo. Ao Lado de Eva, Pandora e da impopular Lilith entre outras dignas de papel principal nas novelas de Manoel Carlos, como a Virgem das virgens, Madalena e a própria Helena de Tróia. Entretanto, você merece está ao lado daquelas que se atreveram na vida, que fizeram seu próprio caminho e transgrediram. Sempre sedenta de prazer, nunca mediu esforços para ter seu homem, isto está claro nas suas exibições, sempre querendo mais e mais. Numa insaciabilidade apoteótica que a descontrolava e jogava-a no mundo carnal das sensações e que depois das ardências provocados no corpo provenientes de beijos para lá de salientes, ela fazia questão de comprimir seu quadril contra o de seu parceiro masculino, buscando ali o seu convite VIP para os Campos Elísios.
Diferentemente dos execráveis pornôs que se tem por aí, que são desprovidos da beleza e afetuosidade que só você possui, deixando em frangalhos qualquer mente sã capaz de perceber o que é definitivamente poético e deleitoso, graciosamente emanados por sua aura dourada. É por estas e outras que tenho absoluta certeza da eternidade vivaz e sagrada de sua memória e, ao mesmo tempo, de sua indubitável importância a toda uma geração.
Antigamente eu era um Guarapan,
hoje sou uma baré Tutti Frutti,
um verdadeiro "The frash Man".
descobri isso no clímax da madrugada e tive certeza no acordar do nosso astro Rei.
Sonhei em ir,
sonhei e quase fui,
sonhei e quase almejei,
sonhei e quase um grande Zaap eu levei.
Imagine que racionalidade não presta,
dois animais vão para a rua
e todos sabemos quais são as verdadeiras intenções de ambos.
Um já quer logo morde a presa,
O outro fica no jogo tentando escapar, mas por quê escapar?
Se no mais sincero pensamento o que se quer é ser mais animal possível?
Por que então não ficastes debaixo dos galhos de sua casa?
Puritanismo demais azeda qualquer doce e, quando azeda, a única forma de digerir é com pinga.
E o ser Infeliz que é ao deitar no seu improvisado colchão de palha
começa a achar que tem vocação para escrever,
pensa que vai escrever bonitas palavras
para expressar a revolta que foi de ter saído debaixo de suas galhas.
Seria muito mais fácil se a felina ficaste ao relento do tempo, do vento e da solidão.
Por que não dizer o motivo maior de não querer a sua zoomorfização?
Tudo é muito confuso.
Queria que neste exato momento
uma bela voz gritasse em meus ouvidos
"Abra os olhos".
Fim de noite. Normalmente estaria cansado e feliz, ainda mais depois de uma embriaguez satisfatória e com pouco custo; na verdade estou sim, cansado e feliz. Já são algumas horas da madrugada e estamos “secos” a procura de mais um esquema, na tentativa pecaminosa de conseguir ver a noite virar dia e nos tornar lenda entre o restante da galera. Éramos pouco menos do que meia-dúzia e, enquanto discutíamos nosso futuro numa boêmia mesa de bar, também tratávamos de nossa manutenção, fazer nossos lábios adormecerem com o entorpecimento alopático de nossa mente graças a uma bebida que, entre outras coisas, tinha a mesma serventia para ascender complexas churrasqueiras. Inusitadamente nos aglomeramos no carro com o intento de nos esquivar do frio que era latente e que o desejo de uma lareira ali bem na nossa frente era freqüente (até rimou). Instintivamente seguimos as batidas, as luzes que coloriam o céu com suas incalculáveis variações de cores com holofotes suficientes mesmo para chamar o BATMAN.
Ao chegarmos ao nosso destino nos deparamos com ele, o de sempre, o mais afamado de todos os cambistas que sem dúvidas tem um pé nas terras quentes do nordeste e que, por míseras moedas de ouro, nos permite entrar naquele palco surreal que, “certamente revolucionou uma geração, integrou o homem à tecnologia, à dança e à natureza”. Em meio àquela cadência de batidas em uma loucura audiovisual, num ritmo alucinante que te obriga, apesar do sorriso no rosto, a fazer coisas um tanto quanto desconexas sem o menor pudor ou preocupação com a velha moral e os bons costumes, numa esfera de pura integração humana e curtição, que os personagens se desenhavam.
Ele, o mais o fidedigno dos brothers não conseguia tirar os olhos dela, nem por um segundo, mesmo com todo empenho em tentar manter a discrição. Eu, que de longe sempre o observei, neste momento não poderia deixar de fazer o mesmo, direcionando toda minha atenção a ele, justamente por perceber que aquela era a oportunidade perfeita que ele tinha para fazer o que tinha de ser feito. Ainda me recordo de suas palavras em relação a ela, que não por ventura tem laços sanguíneos comigo, em que ele relatava toda uma falácia emblemática e simbólica carregada de sentimentos, covardia, enaltecimento entre outros termos romanceados, surpreendendo-me e fazendo-me militar em seu pensamento onde se expressar, encher os olhos para falar, ser romântico na íntegra não é sinal de fragilidade ou fraqueza e sim de mostrar a veemente força dos nossos sentimentos.
Porém não entendia muito sua forma de agir, sua reflexão profunda e indiferente ao meio, sempre muito introspectivo e calado, tudo parecia um dejá vu de outros tempos, amores e/ou paixões paralelas de seu repertório. Uma conduta de quem estava esperando algo ou alguma coisa. Certamente ele estava na tocaia, mas também pensei que ele poderia estar com sono, o que rapidamente deixei de suspeitar, porque havia certa demasia na sua concentração estampada em sua expressão de geraiseiro. Numa confusão de tentar entendê-lo, de ler seus passos, identificar uma estratégia, seja ela qual for, de se jogar, falar, “agarrar”, usar a força, mas que pelo amor de Deus ele tinha de fazer alguma coisa e, inclusive eu estava com medo por ele. Na pior das hipóteses ele tinha que vestir a carapuça de um Ranger vermelho e se tornar um líder e tomar a iniciativa, resolver tudo logo, porque paciência já não se encaixava naquele contexto.
O inevitável aconteceu e um “outro alguém” entra em cena. Ele, o outro, com seu comportamento típico de falar o que é desagradável, de ser um incômodo maior do que pedra nos rins, digno de ser isolado e afastado do convívio social, mas que não deixava de ser nosso amigo, estava conosco no carro, naquela alegria na busca do esquema perfeito e, consequentemente, do nosso fim de noite que era para ser dos Deuses, assim como e em toda nossa jornada do dia e, não somente deste dia, mas também dos dias de adolescente e da infância, um amigo íntimo, das antigas e pior, era complacente com os sentimentos de nosso primeiro personagem.
E neste amálgama de sentimentos, vontades, censuras, manifestações, comportamentos, preocupações, embriaguez, pessoas, metas, objetivos e tudo mais para encher lingüiça para retratar a dor de um “irmão” é que se forma um ambiente de trevas. Lá estava ela, toda linda, serena, com seus lábios roxos, carentes de sangue e calor, sua pele contrastava com a madrugada que demorava ir embora, com seu tamanho compacto e um suntuoso sorriso que, diga-se de passagem, continha uma luz ilimitada, necessitando do aquecimento de um abraço humano, sendo às vezes convidativa, receptiva; e em um destes lapsos de guarda baixa é que o oportunista se faz competente e o que outrora era considerado um amigo, que nada mais é do que um parente, na qual temos o luxo de escolher e que até então tinha somente um desempenho peculiar na forma de agir, mesmo com a falta de seu bom senso e discernimento, agora tornara-se inescrupuloso e hostil, tendo de ser tratado como criminoso de alta periculosidade.
Naquela cena escandalosamente exposta aos olhos de todos que ali estavam e julgavam aquilo só como mais uma conseqüência normal do clima formado graça às batidas desgastantes dos Dj’s e que se configurava numa pegação normal, de alguém que se deu bem na night. Estes desconheciam os bastidores que alicerçavam aquela situação com protagonistas e antagonistas de uma história que não se desenvolveu, e de alguém que ficou jogado à margem de um rio chamado destino.
Na tentativa de poder dizer algo que o fizesse melhor, que o deixasse mais para cima e, que aquela cena presenciada, de ver aquela que fazia seu coração capotar se render aos desencantos de um “outro alguém”, ele num surto de maturidade me diz: “O melhor de amar alguém em segredo é não ter a oportunidade e nem a sorte de tê-la em seus braços, pois isso te aproximaria dela e esta proximidade pode ser letal e macular aquele sentimento que até então você tinha por ela, antes de possuí-la; não quero ter a possibilidade de sofrer, prefiro esta felicidade que, por menor que seja não deixa de me fazer bem e, que mesmo sem desfrutar de seus beijos é melhor que o sofrimento em potencial na qual seríamos vítimas se houvesse uma entrega mútua”. Depois destes argumentos fiquei calado e, a partir deste dia, esta também seria minha melhor desculpa por compartilhar da mesma covardia.
Cansado das mesmas respostas, palavras, desculpas, “sugestas”, argumentos, mecanismos de defesa, da mesma balela, do mesmo “zaap”. Não existe tristeza maior que ouvir repetidamente o de sempre: “nós somos amigos”. E aí? Só isso? Falta uma resposta melhor? Isto te faz feliz? Também não importa. Não importa também se a culpa é minha por sempre abordar “amigas”, não amigas, estranhas, rivais, inimigas ou qualquer coisa que seja. Exaurido! Esta é a palavra que mais identifica meu estado de espírito, justamente pela mesmice, chateação. Consigo até prever com detalhes a resposta alheia, antecipando onde cada vírgula estará empregada na frase. E logo após mais uma batalha lutada, uma saga não vivida, uma história prosseguida numa estrada sem bifurcações, opções, ramificações, lá vou eu todo ardido e cheio de nós no corpo, na mente, na garganta. Num desespero introspectivo só meu, que não se expande, externaliza, manifesta, se libera e que me autoriza a não ser covarde, cúmplice, complacente com minha própria cruz, Karma ou sei lá o que, eu “me vou”.
Sequer tenho uma alegria esporádica, de quem é surpreendido com um presente de Natal ou então da euforia alegre e expressiva estampado no rosto de uma noiva do século XIX prestes a subir ao altar; queria só ter um sentimento desta natureza, unicamente para contrastar, ter uma vida normal, dual, dicotômica entre Dor/Prazer, felicidade/tristeza e tudo aquilo que todos já sabem que existe, porém não agüentam mais discutir ou ouvir.
Em meio a esta turbulência que, diga-se de passagem, anda de mãos dadas com minha futura crise de inferioridade é que vou ao encontro dele, único capaz de me entender, compreender, depreender, absorver, inferir e todos os termos que são viciosamente usados nos enunciados de provas de vestibulares, principalmente na área de humanas, é que tenho minha “alma gêmea”, aquele que faz parceria comigo, teve o mesmo treinamento que eu, mesma educação emocional, preparo sentimental, covardia amorosa, refém da carência masculino e desprovido do orgulho (capital) machista para poder mascará-la com atitudes e pegada. Ele que certamente deve ter sido um garçom numa vida anterior e, consequentemente, ouvido todo tipo de confidência de mal amados, cornos e inadimplentes com a vida não palpável.
Numa embriaguez cintilante e tênuamente obrigatória de vinho que nos permitimos trazer a tona nossas lembranças, rancores, desesperos, infidelidades do lado de lá, inércia e tudo mais que contempla a dor. Uma dor sublime, um tormento capaz de comover até o mais impassível dos corações, deste modo, confundindo todos os meus sentimentos que, a esta altura, já se encontram sinestesicamente deturpados, apresentando-se com uma fugaz singularidade inestimável; uma dor ingênua, cândida, algo que faz minha mente navegar pelo passado, nada distante e, resgatar uma tristeza única, ímpar, do tipo das histórias da Walt Disney quando Mufasa, pai de Simba é morto pelo seu irmão Scar, e o pequeno Simba encontra seu pai estirado ao chão e, mesmo assim, suplicava para que ele se levante, uma das cenas mais marcantes em meu coração, ou então, segundo a cultura oriental de mangás e/ou animês, quando Shaka de virgem, Cavaleiro de Ouro é morto por outros três Cavaleiros do mesmo status – Saga, Kamus e Shura – com um golpe proibido, ou pior, quando Naruto fica sabendo da morte de seu mestre Jiraya-sensei, uma tristeza sem precedentes.
Depois de vislumbrar esta exaltação da dor, sentimentos e percepções derivados de um devaneio nada utópico, é que encontro um chão para pisar, frio, mas sólido, um amigo para desabafar e a imutável realidade para desbravar. E no intuito otimista de ter ao menos uma condição de esboçar um sorriso, mesmo que mecânico e amarelo, religiosamente oculto dentro do peito que vou caminhando, descalço, nu e com um semblante digno de uma imagem Sacra barroca, que busco uma garota que independentemente de ser uma qualquer ou não, somente quero a oportunidade de chamá-la de minha.
Prazer! Meu nome é perdão. Um pedido por perceber, Muitas palavras ao escrever e soltas para se entender!! Porque não sei o que fazer, quando ao dizer coisas tantas, não consigo apreender sequer os pensamentos de escrevê-las. Este fazer dizer no escrever que complica meu entender, Que faz o meu ser (eu) erradamente perceber que, por pensar que está confuso o outro não a vai compreender. E julgar assim, sem perceber que o próximo pode compreender, acho justo este meu nome. Prazer! Meu nome é perdão; Mas quem sabe desculpa.
Num álbum, numa foto de Orkut e lá estava ela, lembro como se fosse hoje ver sua imagem com um rostinho apertado, expressivo e vomitando alegria com seus olhinhos quase fechados e um sorriso gigante; na verdade era um comentário dela numa foto, toda nostálgica e contemplativa que lembrava os momentos de colegiais. “Olá vc aí de cima” e foi isso que eu disse logo abaixo do comentário dela, foi o melhor que conseguir e o suficiente para um diálogo.
Depois de algumas idéias trocadas/comentadas naquela foto rola o de sempre, ela me adiciona e eu a aceito; logo após da praxe de eu dizer quem sou, o que faço e o que gosto e ela fazendo o mesmo, alguém pede o msn, o esperançoso msn. Tantas coisas ditas, um jogo de palavras, de idéias, de comportamento. Fotos e fotos de seu msn mudando e eu cada vez mais maravilhado, encantado; a cada pose dela via seu cabelo dourado de “sayajins” de uma forma; uma vez estava jogado ao vento, outra vez molhado. Era a coisa mais linda que podia ver, sonhar, enxergar.
Que gostoso era ver aquela descendência Eslava que já ditava os compassos tortuosamente descompassados do meu coração e que, ao mesmo tempo, nitidamente dava pra imaginar seus dias de gripe ou de choro em que seu poético nariz ficava avermelhado e seus lábios ganhariam uma tonalidade fortemente “cor de carne”.
De tanto insistir em querer marcar um encontro, de poder vê-la pessoalmente e fazer uma centena de julgamentos sobre o que via naquela pele alva, de sua elegância britânica nas unhas artisticamente pintadas, em sua fissura por sapatos de salto, porém não dava certo. E casualmente quando passava de coletivo, lá estava ela sentadinha no ponto, bonitinha, cansadinha e meu ombro já coçava em se oferecer para seu repouso; e naquela “semgraceza” de nos cumprimentarmos de longe e pensar: “é você mesmo?” meus olhos tímidos se desviavam dos dela e se fixavam no ambiente cinza a nossa volta. Apesar da magia do como aconteceu, foi estranho, muito estranho; mesmo batendo somente a mão de longe eu fiquei quase apavorado, minha mão tremia como uma vara de bambu verde e transpirava como um obeso tipicamente norte-americano em seu primeiro dia de academia.
Mas era no msn que confidenciávamos vontades, gostos e gozos; de seu apreço e do meu repúdio à astrologia e o por que disso; do fascínio que tenho por mãos, de minha ovação pelo tato e tudo que envolve este sentido; e nas inúmeras conversas que já se tornavam repetitivas na qual eu automaticamente sublimava tudo o que nela me prendia a atenção e ela encantadamente ouvia aquilo como poesia e me dizia coisas boas e sugestivas é que tínhamos que nos resolver urgentemente, colorir uma amizade que começava a se desenhar.
E na expectativa dos expectadores é que nos confrontamos mais uma vez ao acaso do maldito destino e, desta vez, no teatro e com uma incontestável oportunidade de interação, estreitar a relação, ter contato físico e criar o famigerado clima e, mais uma vez nada acontece. Entre os sermões de minha platéia pessoal eu me afogava numa moral machista que foi repreendida pela timidez ou por uma incompetência bem entre quatrocentas aspas; sequer fui capaz de forçar, de mostrar, de instigar, causar, constranger e blá blá blá. Foi triste! Tinha que ser homem, ser macho, ser um ocidental, onde as iniciativas historicamente dependem de mim, onde sou o centro da {porra} deste universo.
E nesta convicção que fui ao seu encontro, para a redenção do gênero masculino, para a perpetuação da condição feminina e um final feliz. E lá estava eu, seguro, sem mais conflitos, eloqüente, sensível, terno, charmoso e todo gostoso com o cosmo a minha volta, mas ela estava distante apesar da agitação e, depois de seu expediente, fomos embora e num passeio pelas ruas provincianas de nossa cidade eu tinha que finalizar, atropelar o que me rodeava, aquele som barulhento contemporaneamente urbano, aquela órbita sem sabor que confundia meu olfato e um calor interno latente e impiedoso, em que eu tinha que me retirar (ir embora) e ela também e, num abraço unilateralmente gostoso eu tomo coragem e safadamente procuro seu ouvido, pois eu já não mais agüentava aquela frase que ouvi num filme - “Street Fighter”- A Batalha Final, onde Mr. Bizon tem a notícia que seu inimigo Guile morre e, ao receber os cumprimentos de seu súdito ele comenta: “parabéns por quê? Eu não fiz nada. Guile era um rival a minha altura, um cavalheiro, um guerreiro que tinha honra e que eu não via o dia para confrontar com ele e poder quebrar sua coluna e por ironia do destino ele morre. ‘O caminho não seguido’, por que isso tinha que acontecer”. Acho que era algo deste tipo, mas enfim, “o caminho não seguido” esta era a frase que me perseguia, que me atormentava e que cada vez mais parecia real para mim. Agora que estou tão perto, este sim é o caminho que vou seguir, eu também nunca gostei muito de Mr. Bizon; e quando digo coisas ao seu ouvido, ela me surpreende com sua inédita objetividade, chega encher os meus olhos, principalmente quando eu entendo um NÃO de sua parte; até tentei em alguns segundos argumentar, entretanto o NÃO é claramente o ponto final.
A leveza típica dos movimentos homossexuais era mais pesada que a cruz que eu não mais carregava; estou bem por não ter deixado de ser erroneamente o machista que fui educado, posso não ter tido um final feliz, mas certamente estou bem feliz por ter chegado ao final. Ainda tenho esperanças, e me espelho numa antiga frase de comercial de Shampo, “Me olha... Me olha de novo”.
Numa garimpagem excêntrica, numa tentativa rústica de identificar o desnorteio (da psique) de um outrem que, em meio a confusão da dor, do ser, do vir e do está é que buscamos os melhores contos, histórias, realidades, fantasias, dramatizações, drasticidades e a honestidade do amargo, na qual somos complacentes do contexto ímpar, porém não único da vida de um HOMEM, de sua "catarse" sentimental diante de um balcão de bar.