No Compasso


Num álbum, numa foto de Orkut e lá estava ela, lembro como se fosse hoje ver sua imagem com um rostinho apertado, expressivo e vomitando alegria com seus olhinhos quase fechados e um sorriso gigante; na verdade era um comentário dela numa foto, toda nostálgica e contemplativa que lembrava os momentos de colegiais. “Olá vc aí de cima” e foi isso que eu disse logo abaixo do comentário dela, foi o melhor que conseguir e o suficiente para um diálogo.

Depois de algumas idéias trocadas/comentadas naquela foto rola o de sempre, ela me adiciona e eu a aceito; logo após da
praxe de eu dizer quem sou, o que faço e o que gosto e ela fazendo o mesmo, alguém pede o msn, o esperançoso msn. Tantas coisas ditas, um jogo de palavras, de idéias, de comportamento. Fotos e fotos de seu msn mudando e eu cada vez mais maravilhado, encantado; a cada pose dela via seu cabelo dourado de “sayajins” de uma forma; uma vez estava jogado ao vento, outra vez molhado. Era a coisa mais linda que podia ver, sonhar, enxergar.

Que gostoso era ver aquela descendência
Eslava que já ditava os compassos tortuosamente descompassados do meu coração e que, ao mesmo tempo, nitidamente dava pra imaginar seus dias de gripe ou de choro em que seu poético nariz ficava avermelhado e seus lábios ganhariam uma tonalidade fortemente “cor de carne”.

De tanto insistir em querer marcar um encontro, de poder vê-la pessoalmente e fazer uma centena de julgamentos sobre o que via naquela pele alva, de sua elegância britânica nas unhas artisticamente pintadas, em sua fissura por sapatos de salto, porém não dava certo. E casualmente quando passava de coletivo, lá estava ela sentadinha no ponto, bonitinha, cansadinha e meu ombro já coçava em se oferecer para seu repouso; e naquela “semgraceza” de nos cumprimentarmos de longe e pensar: “é você mesmo?” meus olhos tímidos se desviavam dos dela e se fixavam no ambiente cinza a nossa volta. Apesar da magia do como aconteceu, foi estranho, muito estranho; mesmo batendo somente a mão de longe eu fiquei quase apavorado, minha mão tremia como uma vara de bambu verde e transpirava como um obeso tipicamente norte-americano em seu primeiro dia de academia.

Mas era no msn que confidenciávamos vontades, gostos e gozos; de seu apreço e do meu repúdio à astrologia e o por que disso; do fascínio que tenho por mãos, de minha ovação pelo tato e tudo que envolve este sentido; e nas inúmeras conversas que já se tornavam repetitivas na qual eu automaticamente sublimava tudo o que nela me prendia a atenção e ela encantadamente ouvia aquilo como poesia e me dizia coisas boas e sugestivas é que tínhamos que nos resolver urgentemente, colorir uma amizade que começava a se desenhar.

E na expectativa dos expectadores é que nos confrontamos mais uma vez ao acaso do maldito destino e, desta vez, no teatro e com uma incontestável oportunidade de interação, estreitar a relação, ter contato físico e criar o famigerado clima e, mais uma vez nada acontece. Entre os sermões de minha platéia pessoal eu me afogava numa moral machista que foi repreendida pela timidez ou por uma incompetência bem entre quatrocentas aspas; sequer fui capaz de forçar, de mostrar, de instigar, causar, constranger e blá blá blá. Foi triste! Tinha que ser homem, ser macho, ser um ocidental, onde as iniciativas historicamente dependem de mim, onde sou o centro da {porra} deste universo.

E nesta convicção que fui ao seu encontro, para a redenção do gênero masculino, para a perpetuação da condição feminina e um final feliz. E lá estava eu, seguro, sem mais conflitos, eloqüente, sensível, terno, charmoso e todo gostoso com o cosmo a minha volta, mas ela estava distante apesar da agitação e, depois de seu expediente, fomos embora e num passeio pelas ruas provincianas de nossa cidade eu tinha que finalizar, atropelar o que me rodeava, aquele som barulhento contemporaneamente urbano, aquela órbita sem sabor que confundia meu olfato e um calor interno latente e impiedoso, em que eu tinha que me retirar (ir embora) e ela também e, num abraço unilateralmente gostoso eu tomo coragem e safadamente procuro seu ouvido, pois eu já não mais agüentava aquela frase que ouvi num filme - “Street Fighter”- A Batalha Final, onde Mr. Bizon tem a notícia que seu inimigo Guile morre e, ao receber os cumprimentos de seu súdito ele comenta: “parabéns por quê? Eu não fiz nada. Guile era um rival a minha altura, um cavalheiro, um guerreiro que tinha honra e que eu não via o dia para confrontar com ele e poder quebrar sua coluna e por ironia do destino ele morre. ‘O caminho não seguido’, por que isso tinha que acontecer”. Acho que era algo deste tipo, mas enfim, “o caminho não seguido” esta era a frase que me perseguia, que me atormentava e que cada vez mais parecia real para mim. Agora que estou tão perto, este sim é o caminho que vou seguir, eu também nunca gostei muito de Mr. Bizon; e quando digo coisas ao seu ouvido, ela me surpreende com sua inédita objetividade, chega encher os meus olhos, principalmente quando eu entendo um NÃO de sua parte; até tentei em alguns segundos argumentar, entretanto o NÃO é claramente o ponto final.

A leveza típica dos movimentos homossexuais era mais pesada que a cruz que eu não mais carregava; estou bem por não ter deixado de ser erroneamente o machista que fui educado, posso não ter tido um final feliz, mas certamente estou bem feliz por ter chegado ao final. Ainda tenho esperanças, e me espelho numa antiga frase de comercial de Shampo, “Me olha... Me olha de novo”.



2 Copos na Mesa:

Flávia 27 de janeiro de 2009 08:50  

já escutei essa história em outras palavras.
gostei.

posso escutar as batidas do seu coração, amigão: popoff, popoff, popoff..

Flá*

Rodolpho Bastos 27 de janeiro de 2009 09:03  

Que Paia...
Nem tem isso.

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Numa garimpagem excêntrica, numa tentativa rústica de identificar o desnorteio (da psique) de um outrem que, em meio a confusão da dor, do ser, do vir e do está é que buscamos os melhores contos, histórias, realidades, fantasias, dramatizações, drasticidades e a honestidade do amargo, na qual somos complacentes do contexto ímpar, porém não único da vida de um HOMEM, de sua "catarse" sentimental diante de um balcão de bar.


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