O Jovem Trovão



Fim de noite. Normalmente estaria cansado e feliz, ainda mais depois de uma embriaguez satisfatória e com pouco custo; na verdade estou sim, cansado e feliz. Já são algumas horas da madrugada e estamos “secos” a procura de mais um esquema, na tentativa pecaminosa de conseguir ver a noite virar dia e nos tornar lenda entre o restante da galera. Éramos pouco menos do que meia-dúzia e, enquanto discutíamos nosso futuro numa boêmia mesa de bar, também tratávamos de nossa manutenção, fazer nossos lábios adormecerem com o entorpecimento alopático de nossa mente graças a uma bebida que, entre outras coisas, tinha a mesma serventia para ascender complexas churrasqueiras. Inusitadamente nos aglomeramos no carro com o intento de nos esquivar do frio que era latente e que o desejo de uma lareira ali bem na nossa frente era freqüente (até rimou). Instintivamente seguimos as batidas, as luzes que coloriam o céu com suas incalculáveis variações de cores com holofotes suficientes mesmo para chamar o BATMAN.

Ao chegarmos ao nosso destino nos deparamos com ele, o de sempre, o mais afamado de todos os cambistas que sem dúvidas tem um pé nas terras quentes do nordeste e que, por míseras moedas de ouro, nos permite entrar naquele palco surreal que, “certamente revolucionou uma geração, integrou o homem à tecnologia, à dança e à natureza”. Em meio àquela cadência de batidas em uma loucura audiovisual, num ritmo alucinante que te obriga, apesar do sorriso no rosto, a fazer coisas um tanto quanto desconexas sem o menor pudor ou preocupação com a velha moral e os bons costumes, numa esfera de pura integração humana e curtição, que os personagens se desenhavam.

Ele, o mais o fidedigno dos brothers não conseguia tirar os olhos dela, nem por um segundo, mesmo com todo empenho em tentar manter a discrição. Eu, que de longe sempre o observei, neste momento não poderia deixar de fazer o mesmo, direcionando toda minha atenção a ele, justamente por perceber que aquela era a oportunidade perfeita que ele tinha para fazer o que tinha de ser feito. Ainda me recordo de suas palavras em relação a ela, que não por ventura tem laços sanguíneos comigo, em que ele relatava toda uma falácia emblemática e simbólica carregada de sentimentos, covardia, enaltecimento entre outros termos romanceados, surpreendendo-me e fazendo-me militar em seu pensamento onde se expressar, encher os olhos para falar, ser romântico na íntegra não é sinal de fragilidade ou fraqueza e sim de mostrar a veemente força dos nossos sentimentos.

Porém não entendia muito sua forma de agir, sua reflexão profunda e indiferente ao meio, sempre muito introspectivo e calado, tudo parecia um dejá vu de outros tempos, amores e/ou paixões paralelas de seu repertório. Uma conduta de quem estava esperando algo ou alguma coisa. Certamente ele estava na tocaia, mas também pensei que ele poderia estar com sono, o que rapidamente deixei de suspeitar, porque havia certa demasia na sua concentração estampada em sua expressão de geraiseiro. Numa confusão de tentar entendê-lo, de ler seus passos, identificar uma estratégia, seja ela qual for, de se jogar, falar, “agarrar”, usar a força, mas que pelo amor de Deus ele tinha de fazer alguma coisa e, inclusive eu estava com medo por ele. Na pior das hipóteses ele tinha que vestir a carapuça de um Ranger vermelho e se tornar um líder e tomar a iniciativa, resolver tudo logo, porque paciência já não se encaixava naquele contexto.

O inevitável aconteceu e um “outro alguém” entra em cena. Ele, o outro, com seu comportamento típico de falar o que é desagradável, de ser um incômodo maior do que pedra nos rins, digno de ser isolado e afastado do convívio social, mas que não deixava de ser nosso amigo, estava conosco no carro, naquela alegria na busca do esquema perfeito e, consequentemente, do nosso fim de noite que era para ser dos Deuses, assim como e em toda nossa jornada do dia e, não somente deste dia, mas também dos dias de adolescente e da infância, um amigo íntimo, das antigas e pior, era complacente com os sentimentos de nosso primeiro personagem.

E neste amálgama de sentimentos, vontades, censuras, manifestações, comportamentos, preocupações, embriaguez, pessoas, metas, objetivos e tudo mais para encher lingüiça para retratar a dor de um “irmão” é que se forma um ambiente de trevas. Lá estava ela, toda linda, serena, com seus lábios roxos, carentes de sangue e calor, sua pele contrastava com a madrugada que demorava ir embora, com seu tamanho compacto e um suntuoso sorriso que, diga-se de passagem, continha uma luz ilimitada, necessitando do aquecimento de um abraço humano, sendo às vezes convidativa, receptiva; e em um destes lapsos de guarda baixa é que o oportunista se faz competente e o que outrora era considerado um amigo, que nada mais é do que um parente, na qual temos o luxo de escolher e que até então tinha somente um desempenho peculiar na forma de agir, mesmo com a falta de seu bom senso e discernimento, agora tornara-se inescrupuloso e hostil, tendo de ser tratado como criminoso de alta periculosidade.

Naquela cena escandalosamente exposta aos olhos de todos que ali estavam e julgavam aquilo só como mais uma conseqüência normal do clima formado graça às batidas desgastantes dos Dj’s e que se configurava numa pegação normal, de alguém que se deu bem na night. Estes desconheciam os bastidores que alicerçavam aquela situação com protagonistas e antagonistas de uma história que não se desenvolveu, e de alguém que ficou jogado à margem de um rio chamado destino.

Na tentativa de poder dizer algo que o fizesse melhor, que o deixasse mais para cima e, que aquela cena presenciada, de ver aquela que fazia seu coração capotar se render aos desencantos de um “outro alguém”, ele num surto de maturidade me diz: “O melhor de amar alguém em segredo é não ter a oportunidade e nem a sorte de tê-la em seus braços, pois isso te aproximaria dela e esta proximidade pode ser letal e macular aquele sentimento que até então você tinha por ela, antes de possuí-la; não quero ter a possibilidade de sofrer, prefiro esta felicidade que, por menor que seja não deixa de me fazer bem e, que mesmo sem desfrutar de seus beijos é melhor que o sofrimento em potencial na qual seríamos vítimas se houvesse uma entrega mútua”. Depois destes argumentos fiquei calado e, a partir deste dia, esta também seria minha melhor desculpa por compartilhar da mesma covardia.

5 Copos na Mesa:

tim 4 de fevereiro de 2009 07:19  

q lindo!

só faltou romancear tb a sua parte - importantissima - na história, né?

=]

Rodolpho 4 de fevereiro de 2009 07:22  
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodolpho 4 de fevereiro de 2009 07:24  

que nada, minha parte foi só mais um um zap de quem "morreu" pra mim, por que bom rufiador mesmo é aquele que faz "morrer" pra vc, mas nunca pega"

[=

Aninha 7 de fevereiro de 2009 10:48  

esse texto ficou muito lindo *-*

Rodolpho 7 de fevereiro de 2009 13:39  

=]

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Numa garimpagem excêntrica, numa tentativa rústica de identificar o desnorteio (da psique) de um outrem que, em meio a confusão da dor, do ser, do vir e do está é que buscamos os melhores contos, histórias, realidades, fantasias, dramatizações, drasticidades e a honestidade do amargo, na qual somos complacentes do contexto ímpar, porém não único da vida de um HOMEM, de sua "catarse" sentimental diante de um balcão de bar.


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