Cor de Carne

Não me dê nomes. Conheça apenas a natureza em si e não deixe isto escapar, se for capaz. Aliás, conhecer não é o mesmo que pensar!
O que fazer?
Sair daqui?
Mas eu sei que se existe prazer foi pra levantar quem tem preguiça...
E me perpetuar é só mais uma desculpa pra gozar. Pobre do sexo! Ou melhor, do gozo.
Se [ele] soubesse que só existe pra dá continuação de nós nos outros e, pior que isso, é dá ‘trela’ as poesias do Tesão.
Então tem que merecer meu mover. Não costumo andar gratuitamente. Tem que haver mais, muito mais do que desculpas que matam preguiça.
Tem que merecer.....
Mas Atenção!
Não me canse. Não espere muito, por insistir. Apenas mereça. Porém, se insistir em fazer caras e bocas, eu vou dormir. Perseverança nunca foi sinônimo de merecimento....
Agora, se que só atrair minha atenção sem merecer, conte uma piada.














Por Sanchez

Imagens

E se acordei na madrugada, foi pra enganar o tédio. Foi pra apresentá-lo a uma longa manhã e enfiar na sua cabeça que o dia tem três pedaços. Queria cansá-lo. Talvez o próprio tédio se entediasse de me entediar, se cansasse e me deixasse em paz.

Tentei acreditar numa nostalgia de tempos não vividos, saudades de um lugar que nunca vi. Mas não tem como. A verdade disto está na poesia de escrever e não na mentira de sentir.

E se cada dia me afasto da infância, é fazer força pra não acreditar que depois dos 10, tudo é decadência. É esperar um amanhã melhor, porque a certeza de um ontem mais legal é me importar demais com o dia de hoje. Parece que o copo cheio fica cada vez mais vazio, do meio pra cima.

Fico cego ao enxergar o doce, acho pesado o verde com vermelho, roxo e amarelo; De tocar sua alma e ouvir sua dor. É pensar que os sentidos não fazem sentidos quando não seguem a ordem de sentir o que temos de sentir, onde temos de senti-los. É confuso. Leviano. Vivaz demais.

E se me chamam de forte, foi por culpa da rejeição e hoje sou até capaz de rir e de fazer piadas disso. E pensar que ser fraco é tão lícito.

E ela tinha razão. “Carência e proximidade”. Era só confusão mesmo. Foi como beijar minha irmã, para tanto fiquei mais aliviado e ela também. Pelo menos superamos a ‘caretice’[de somos amigos], pena não existir prêmio pra isso.










Por Sanchez



Onde as Folhas Dançam

Não. Definitivamente não.
Não tenho simpatia por paradoxos.
Evito comentários de quem se afasta [dois metros], senta na calçada com olhos vazios, pescoço curvado, cabeça cheia do que deve pensar pra parecer não pensar em nada e enjoar do seu próprio timbre de voz, quando afirma – mais uma vez – está bem.
Não gosto do carro de Apolo e concordo serem mais bonitas as folhas secas do outono. Gosto de lideranças, de quem faz questão que seu ‘bom senso’ filtre as ações dos amigos. Porém, prefiro água não filtrada.
Gosto de escritas longas e cansativas, das que lemos em voz alta e dizemos ‘ahan’, quando é perguntado sobre o entendimento, mesmo sendo mentira. Melhor mesmo é ceder à preguiça do que escrever.
Lamento pelo amor e suas irônicas rimas [dor], no arrepio sentido do espirro perdido. E definitivamente não gosto do que ficou no fundo da caixa de Pandora. E terminar sempre foi mais convidativo do que começar novamente.









Por Sanchez

Resgate

É tempo de resgate, de trazer o que foi para ‘ser’ e, portanto, permanecer.
É ver o passado deixar de ser aquilo que não é mais, para continuar sendo e não perecer.
Por que se um dia eu quis ser rebelde, foi para negar meu contentamento de ordem...
E se escolhi o ‘vermelho da igualdade’, foi devido a carência sutil de 'luz' das diferenças...
E se meu cabelo cresceu, foi pra dizer que não dava mais pra ‘podar’ os meus desejos.
E se um dia aquilo que se passou 'era' algo que não é mais, hoje continua sendo aquilo que foi, ao mesmo tempo em que não 'é'.
É ver a inércia do que não muda e do incorruptível ser degradada. Testemunhar o ‘devir’ revelar sua face e preparar o terreno para as ‘metamorfoses andantes’ do dia-dia.
É o passado - que assume o lugar de direito do presente - comumente confundido com o ‘vir a ser’...
O que antes dava assento para o outro, agora reivindica seu lugar de volta.
É ver o modismo demodê da moda, desenterrar motivos para amar e agredir o que não é belo...
É confundir-se com uma Ortodoxia de ‘bermudas’.
É ser reacionário unicamente por reagir.
É conseguir, a todo o momento, fundar um conceito de anacrônico.
É empalidecer com os novos [velhos] costumes, dar espaços as novas [velhas] guerras...







Por Sanchez

Tango


Não foi a primeira vista. Longe disto. Era um desacordo seguido de outro. Eu não conseguia entender e, muito menos esforçava-me em querer compreender as nuances do que ou quem mostrava-se aos meus olhos. Pensava ser mais simples encontrar seus pontos e frases de efeitos, em que decorar milimétricamente sua superfície, facilitaria seu entendimento. Uma apreensão rasa e equivocada de seu mundo. E quando cansei de me perder, por conta da insistência desta “decoreba burra”, me dei ao trabalho de aprender um pouco. E estava seguro das surpresas, que a todo momento apareceriam, e de um conseqüente turbilhão de sentimentos ideários de extroversão.

Mesmo assim, fui tomado por uma paixão arrebatadora e sem escrúpulos. Uma atormentadora poesia [quase] capaz de emoldurar e situar o intangível espaço/tempo. E quando ousei um segundo passo para conseguir dar meu primeiro mergulho em águas mais profundas de um oceano preguiçoso, percebi no ‘íntimo’, que sentimentos ideários de extroversão são filhos, intencionais ou não, de uma “propaganda demodê e enganosa”.

Diante desta situação de estranhamento por não conseguir aplicar valor ao belo apresentado, entendo o porquê tantos abandonaram esta ousadia, qualificando suas ações em frustrações. Porém, a frustração estava fora de cogitação, pois o que frustrava uma maioria, encantava uma minoria. Era este movimento ininterrupto de seu mistério que amadurecia cada momento os nossos corações. Uma mixagem intempestiva de euforia, encantamento e enigma, que deixavam-se orquestrar num ritmo dançante, como se em nossas veias circulassem sentimentos inimitáveis.

Certamente ela conseguia responder todos os meus questionamentos dos porquês as pessoas se casam; pelo menos era uma justificativa mais aceitável. E com ela me ‘casei’. Fazíamos um do outro sua testemunha viva, seu porto seguro e inspiração para as conquistas da vida. Vitórias que somente ganham conotação de importância quando temos com quem partilhar. Era o ventre e vazão dos meus sonhos, e eu a semente e sustentação de sua existência.

Frutos. E somente frutos era o melhor que ela pode me deixar. Numa ‘tragédia’ prevista, fomos acometidos por uma fatalidade e eu presenciei sensorialmente sua vida esvaindo-se, como se escorresse pelo ralo de um banheiro fétido. Lembrar da dor que sentir quando ela partiu, é agonizar com uma coroa de espinhos na cabeça. É ter a vontade de transgredir o sagrado, sentir uma pesada dor nos dedos ao escrever uma carta-testamento e me deprimir com um malogrado ponto final.

E aquela pequena criatura, fruto maior de nosso emaranhado calor, é uma hospedeira inata de sonhos outrora sonhados e um amontoado conteúdo correlato, resultado de nosso capricho [des]pudorizado. Entretanto, não era simples ignorar a falta que ela me fazia e de todos os predicados de conforto transcendente que, ao mesmo tempo, me era dado. E somado a isto, ver nosso ‘filhote’ se perder em trevas e desespero, em função do largo tempo que se passou e do distanciamento; do mesmo modo, a sua não-sociabilidade, sendo um inconveniente para o seu crescimento/prosseguimento.

Tudo isto alimentava uma probabilidade certeira para seu definhamento racional. Afogava-se em uma desesperança silenciosa e comum aos conteúdos sem cascas, disformes em formatos e multifacetados em sua essência. E um grito ‘rasgante’ sobrepuja o silêncio de seu desespero e com um toque de classe, recusa-se a existir.

Numa [relativa] pequena saga, o desvanecido destino me ‘castrou’ pela segunda vez, transfigurando minha vida numa substanciosa caricatura. E foi com maestria que o [des]virtuoso vento do norte preencheu o desvão – entre o início de minha história e o presente – com um sentimento ‘Tango’. ‘Um pensamento triste que se pode dançar’.


Copo Americano


Era uma situação inversa, no mínimo menos habitual do que normalmente acontece. Desta vez a vitima era uma descendente de Eva e não um varão, herdeiro do trono de ‘trouxa’, pertencentes aos filhos de Adão. Reconheço o esforço dela para ser discreta naquela arrebatadora paixão cega, mas para as pessoas mais próximas, mais coniventes com suas ações e indubitavelmente confidentes, seu comportamento era gritante e de fácil verbalização.

Mesmo assim, não era simples observar o que acontecia, exatamente por não compartilhar de seu grupinho seleto de ‘segredinhos’. Da mesma forma, também se deve a minha inflexibilidade em relação a uma possibilidade de tormento e dor, no seio daquelas que com facilidade, competência e freqüência, faz de nós, homens, bons em conviver com um estranho amargo sabor da derrota.

Elas que historicamente fazem de nós homens, um simples ornamento para sua figura e ‘ego’, que sempre tem nas mãos as mais variadas ferramentas para apreensão, envolvimento e fidelização de um rebanho do sexo oposto. Com ela verifica-se que este clichê temporal não tem validade, é apenas uma balela abstrata que não encontra prática quando direcionada a quem se deseja.

Na espera de uma oportunidade, ela se camuflava de uma amiga, melhor amiga ou a mais confiável, algo que a fizesse estar perto dele, de quem torce por ele. Porém as conseqüências não eram legais. E ele com sua popularidade, fruto de seu carisma sorridente, e mesclado pela suas ações desprovidas de preocupações, acomodava-se nas ‘permissões’ que sua imagem lhe permitia.

Pior do que presenciar ela ceder à insistência dele para que servisse de intermédio para outras garotas, ou se permitindo ficar junto de garotas quaisquer na sua frente, era saber que ele fazia isso consciente dos sentimentos dela para com ele. Ver a ‘secura’ de seus olhos, era entender esforço que fazia de não demonstrar dor com lágrimas, em que ser discreta era seu lema pessoal, para demonstrar/representar que ele era um passado já superado, mas era inútil.

Nestes momentos presenciados, onde o ponteiro referente aos segundos parece percorrer uma circunferência do tamanho de Júpiter, é que sua mente deve reconhecer que o termo Caos, está mais para um conceito do que para qualquer outra coisa. É refazer em sua mente o percurso de sua história até aquele momento. Lembrar de situações de embriaguez mútua, trazendo para o campo da simplicidade um ‘mísero’ ato de ‘ficar’ junto de quem tanto se quer.

Não dava para saber o tamanho do limite de seu orgulho. Parecia não ter fim, permitia muitas coisas e situações dolorosas que necrosavam seu coração e sua sensibilidade para o bom senso. Sequer era passível de sentir a preocupação daquelas [amigas] que incansavelmente se perdiam em investidas, na tentativa de devolver-lhe o discernimento.

E depois de tanto labutar a espera da oportunidade perfeita, de tanta dor refletida em lágrimas detidas de se mostrarem, de tanto ‘ficar de graça’ pra ele é que ela, num gole seco de saliva permitiu-se a sentir uma última dor. A famigerada dor de terminar um sonho, um projeto e um caminho sem ao menos ter de fato começado, e ao lado dele.

Não dava mais para fantasiar a realidade com uma névoa onírica. Ela tinha de entender que se deixar a mão no fogo, certamente vai doer mais cedo ou mais tarde, e de uma forma interessante doeu mais cedo, entretanto, ela só gritou e tirou a mão mais tarde, na qual ficou agonizando durante um bom tempo. E como diz o Poeta “a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”, pelo menos esta era a sua nova fé.

Era Uma Vez...


Era uma vez um som cadenciado, estalos cada vez mais agudos e que flertavam sistematicamente com estrondos mais ocos, um barulho que causava uma sensação estranha, em especial e neste momento, no partir do Sol. O Céu parecia um grande borrão avermelhado, lembrava tristemente uma lágrima de sangue. Na tentativa de encontrar o motivo de tanta agitação para os meus ouvidos, esbarro na brutalidade. E todo aquele estardalhaço resumia-se em colocar uma existência no chão, fazer de uma história de companhia e conforto um amontoado de estilhaços.

Desde que me entendo por gente, ele sempre esteve ali, no seu refúgio único, imóvel, desprovido de quaisquer intenções que não fosse a de se sentir bem somente com espaço que tem, assim como, o que ele é apenas em si e por si, mesmo sendo o pilar único e necessário para sua própria alegria de ser e existir. Alienado e feliz, este parecia ser o seu lema, pois era como se comportava diante de tudo que acontecia a sua volta. Dono de uma indiferença mortal e distinta. Na realidade era uma apatia muito complacente com qualquer dor que fosse levada aos seus ouvidos.

Tinha uma presença que clareava qualquer dúvida, um espírito forte e bem resolvido que conseguia dá norte toda falta de direção, sem sequer arranhar sua autonomia. Com a permissão dele derramei minhas primeiras lágrimas de ressaca moral, chorei a perda dos entes mais queridos que um dia me fizeram sorrir. Na sua companhia eu flertei desconcertadamente pela primeira vez, foi testemunha de meu primeiro beijo e o único que não duvidou da perda de minha virgindade.

Com ele vi de perto o atropelamento de meu primeiro cãozinho, ainda filhote, e ainda foi vítima do esguicho de sangue por conta do tamanho e velocidade do carro e, com isso, ficou todo sujo, igualmente a mim. Era alvo do blá blá blá dos meus pensamentos, em voz alta, das reflexões diárias daquilo não conseguia compreender, do "vê para crer" nas coisas e de análises errôneas sobre comportamentos e o funcionamento do todo.

Certamente me viu chorar escondido, depois de eu ter assistido filmes 'bestas', daqueles de finais tradicionalmente felizes [de viverem felizes para sempre], compartilhou comigo o mesmo não entendimento do meio e, principalmente, do final da novela Cubanacam. Não consigo me lembrar do quanto esquentei seus ouvidos com minhas histórias de amores mal e não correspondidos e das tristezas que isso me causava. Ali, com ele, eu literalmente descarregava todo o peso de minha vida e de meu amador modo de viver grosseiro e ingênuo.

Eu ao menos tive a oportunidade de dizer isto para ele, do quão especial ele se tornou e, de tal forma, que ainda faz o intermédio de minhas ações. Queria poder falar com ele uma ultima vez, mas não aquelas mesmices em que estava acostumado a ouvir de minha parte e sim um obrigado com letras maiúsculas. Todas as vezes que saio de casa, exatamente na porta, do meu lado direito, é inevitável, tenho de olhar para aquele vazio e sentir um aperto na garganta e uma sensação estranha no peito. Enfim, nada está lá, somente às marcas de quem um dia por tanto tempo viveu naquele lugar. E hoje, o que posso dizer senão que tenho saudades de meu banco!






Numa garimpagem excêntrica, numa tentativa rústica de identificar o desnorteio (da psique) de um outrem que, em meio a confusão da dor, do ser, do vir e do está é que buscamos os melhores contos, histórias, realidades, fantasias, dramatizações, drasticidades e a honestidade do amargo, na qual somos complacentes do contexto ímpar, porém não único da vida de um HOMEM, de sua "catarse" sentimental diante de um balcão de bar.


Rodolpho Bastos
&
Tim Pires

Afinados

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